Selecionou o número do celular na reservada lista de seu aparelho e, enquanto aguardava, ficou planejando mudar a decoração, que considerava démodé. Após alguns toques, bastou reconhecer a voz no “pode falar” para dar cumprimentos eufóricos e enfatizar: “Estamos lá de novo!”
Depois de agradecer, o outro disse: “Esta até que foi fácil, mas, o senhor sabe como é, a gente sempre fica tenso até ver o resultado final.”
“Normal. Aposto que fui o primeiro a te ligar.”
“Foi. Mas era mesmo o senhor a primeira pessoa que eu desejava dividir este momento.”
“É realmente uma pena os afazeres terem me impedido de estar ao seu lado agora, meu jovem, mas assim que puder eu pego o jatinho e vou te dar um abraço.”
“Não se incomode, é bom saber que existem amigos como o senhor, independente da distância.”
“Tenho grande consideração por você, meu jovem. Por falar nisso, muita gente está satisfeita. Você foi um bom investimento. Olha, e tenho orgulho de dizer que você está se tornando melhor do que eu.”
“Imagina! O senhor abriu caminho em épocas mais difíceis, apostando as fichas numa nova imagem e em novas alianças que, por competência, deram certo. O senhor fez escola e é um espelho pra mim.”
“Obrigado, meu jovem! Suas palavras alegram meu velho coração. Tem uma coisa que eu não quis falar antes para não te deixar ansioso, mas durante todo este processo eu estive negociando com um grupo estrangeiro que quer entrar pesado. Olha, não estão pensando pequeno não. É coisa de cachorro grande.”
“Que bom! O senhor sabe mesmo o que faz.”
“O único senão é a probabilidade de haver um choque de interesses do grupo em questão com os dos nossos parceiros. Mas no nosso ramo é assim, ou você tem jogo de cintura ou perece.”
“Estou sempre aprendendo com o senhor.”
“Você sabe que é para você que passarei meu cajado, não é, meu jovem? Falta aprender umas coisinhas, que só o tempo ensina, mas o principal você já sabe: o negócio de ir dando aos poucos o milho aos pombos.”
“Mas o senhor sabe que nem tudo são flores, cheguei a ficar preocupado com as notícias que andaram sendo soltas...”
“Relaxa, daqui a pouco os pombos esquecem. Se é que já não esqueceram, sua vitória foi massacrante.”
“Confesso que teve um momento que cheguei a ficar com medo, o senhor sabe que o grupo que dava apoio ao meu oponente não é peixe pequeno não. Só recuaram nas denúncias depois que também mostramos o que tinha embaixo do tapete deles.”
“E você pode escrever o que vou dizer, meu jovem, na próxima eles vão querer estar do nosso lado. Por falar em nosso lado, sabe quem veio tomar um uísque aqui ontem? O Albatroz.”
“É mesmo?”
“Claro, ele não nasceu ontem, só estava esperando as coisas firmarem um pouco mais para vir oferecer apoio irrestrito da sua rede de comunicações, naquela velha história de que uma mão lava a outra...”
“E as duas lavam a bunda.”
Gargalharam e, como se combinado, pararam juntos.
A conversa foi retomada em forma de advertência: “Falando sério, meu jovem, a gente precisa comemorar esta vitória em um lugar de confiança. Principalmente agora que estamos nessa campanha de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Ajeita uma viagem pra cá, tenho contatos seguros que me fornecem carne da melhor qualidade. Você sabe que eu sou um filantropo por excelência, não sabe?”
Novas risadas prazerosas.
“Está bem, meu jovem, vai que a coletiva está te esperando. Até chegar nosso encontro, a gente vai se falando. Um forte abraço! Só mais uma coisa, meu jovem, agora que você vai faturar alto com os novos investidores, não quer aproveitar e comprar aquela minha fazenda? Te dou de graça um punhado de família sem-terra de pé rachado.”
Após a risadinha do outro lado da linha, ouviu um benzer invocando proteção divina e o praguejar: “Nem me pagando quero essa raça. Até porque já tem quem lucra com ela.”
Ofereceram-se favores e se despediram.
Ele posou o celular sobre a grande mesa — que logo seria substituída — e foi ao armário ponderar qual uísque cabia ao seu paladar naquele momento. Dose posta, começou a dividir sua apreciação entre o sabor da bebida e o espetáculo das pedras de gelo sendo colididas.
O celular começou a tocar e o nome na pequena tela deu-lhe leves palpitações. Emborcou uma golada, só daí atendeu: “Sim? Acabei de falar com ele. Está certo. Fica tranqüilo, ele é macaco do nosso realejo. Não esquenta, depois a gente acerta. Até logo.”
Terminou a dose, saboreando o confortável abraseamento que começava a circular pela corrente sangüínea. “Afazeres!”, disse em voz alta para o quadro em homenagem a um patrono da república em pose heróica. Esparramado na cadeira forrada de couro, fazendo as pedras de gelo chocarem-se no copo bojudo — agora sem o líquido dourado —, voltou-se novamente ao quadro e ensaiou uma expressão facial a partir do eminente personagem histórico retratado. Então levantou-se e foi enfático: “O mundo está cheio de afazeres, e alguém precisa se encarregar disso.”
Depois acionou o motorista.
Na saída do portão da Casa Oficial, o carro parou para atender a imprensa. Ele abaixou o vidro e foi logo advertindo que estava apressado. Um jornalista se adiantou aos demais: “Senador, o que o senhor tem a dizer a respeito do fim de mais uma eleição?”
Ele jogou seus pequenos olhos brilhantes para a câmera em foco, e, tentando reproduzir certa severidade serena, declarou no tom de voz levemente sibilante: “O tribunal eleitoral tem toda razão quando diz que esta é a festa da democracia!”
OS CONVIDADOS (conto)
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