A LÁGRIMA (conto)

Quem assistia demorou a acreditar que fosse uma lágrima. A emissora, tão famosa pelo padrão de qualidade, não conseguiu deter a lágrima que escorreu do olho direito da apresentadora do telejornal noturno.
Logo ela, recém-promovida ao programa de maior índice de audiência nacional — após anos à frente do jornal da tarde, depois de passar por moça do tempo e o ingresso como repórter de rua. Será que justo agora poria tudo a perder com a intrusa lágrima em seu rosto?
Havia chegado seu grande momento, ela era perfeita para ser enquadrada no novo perfil estipulado para o casal do jornal da noite: menos sisudez, mais emoção. Uma mulher madura que sabia assumir um jeito jovial de passar a notícia; com a proeza em conseguir encher os olhos de água, sem derramar sequer uma gota — para não afetar a maquiagem —, quando se tratava de informações tristes, especialmente catástrofes da natureza e sequestro de criança.
Poderia até se inferir que aquela lágrima também fizesse parte da nova proposta do telejornal. Mas não era possível; seria muito despropositado — num programa tão cheio de propósitos — que surgisse enquanto era noticiado algo corriqueiro: percalços que faziam estender o inquérito sobre um político que desviara verbas públicas.
Também não havia nenhum sinal de gripe ou resfriado que pudessem fazer os olhos da apresentadora lacrimejarem.
O certo era aceitar que aquela lágrima era casual; sendo desesperadora para a produção. Imagine quanta labuta era empreendida para conceder a feição de manequim aos apresentadores. Então eis que acontece um instante de impotência.
Neste momento, a atenção dos telespectadores se prendia apenas à lágrima, que conquistava parte da bochecha, mantendo sua lenta e vitoriosa descida. A enorme audiência passou a torcer para que ela percorresse toda face até pingar no blazer cinza, e criar uma marquinha escurecida na lapela, antes que a apresentadora fosse tirada do plano da câmera ao fim da notícia.
O fato é que ela passou a ler com rapidez o TelePrompTer, provavelmente advertida pela direção. A população já se frustrava, sabendo que entraria os comerciais e não veriam a lágrima afetar ainda mais a maquiagem e macular o figurino.
Foi o que aconteceu. A cena da lágrima foi cortada quando ainda estava na covinha do rosto. Assim que o telejornal voltou, depois do desfile dos patrocinadores, a simpática apresentadora fazia cara de que nada havia acontecido.

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