A VIDA APÓS A MORTE

O post "O lamento da hiena" do grande figura Nilo Oliveira - decostasprumar.blogspot.com -, com sua teoria sobre os "Grandes Mortos", me fez comentar e trazer poesias de uns sujeitos que gosto de ler e escutar, cujo traço comum é o tema "a vida após a morte".
O mestre no tratamento do tema é - o pai de muita gente - Charles Baudelaire. Exemplar nesse sentido é Uma carniça; em que começa recordando "uma infame carcaça" encontrada ao léu em "uma curva do caminho". Então: "Moscas vinham zumbir sobre este ventre pútrido/Donde saíam batalhões/ Negros de larvas a escorrer - espesso líquido/Ao largo dos vivos rasgões." E eis que a vida se prolifera na morte: "E tudo isto descia e subia, qual vaga,/Ou se atirava, cintilando;/E dir-se-ia que o corpo, inflado de aura vaga,/Vivia se multiplicando."
A obra de Baudelaire é bem fecunda em dimensionar o tema. E eu não duvidaria que Gottfried Benn andou 'cheirando' As flores do mal antes de escrever a maravilhosa A bela juventude, que faço questão de reproduzir na íntegra, a partir da tradução de José Paulo Paes:
A boca da moça que longo tempo jazera em meio aos juncos estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando numa arcada abaixo do diafragma um ninho de ratos novos.
Uma das ratinhas morrera.
Seus irmãos viviam do fígado e dos rins; bebiam sangue frio e tinham passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles: jogaram-nos todos na água.
Ah, como os focinhozinhos guinchavam!
Baudelaire determinantemente fez a cabeça do magistral Augusto dos Anjos, que criou a melhor homenagem ao ser que nos espera na "frialdade inorgânica da terra": O DEUS-VERME. Nesse, o operário das ruínas "Almoça a podridão das drupas agras,/ Janta hidrópicos, rói vísceras magras/E dos defuntos novos incha a mão..." Notem a imagem da última estrofe: "Ah! Para ele é que a carne podre fica,/E no inventário da matéria rica/Cabe aos seus filhos a maior porção!"
No disco Canções de ninar dos Garotos Podres há uma das melhores roupagens dada ao tema, cabendo ao próprio verme ser o eu-lírico, que recita sua 'vida' ao som do melhor estilo "rock de subúrbio". Os compositores são Renato e Mau, o nome da canção é.... Verme: "Eu sou o verme/ que vai te comer no seu caixão,/ espero que sua carne/ seja bem macia/pra mim (sic) não ter nenhuma azia."
Aí Nilo, quem se alimenta de um Grande Morto poderia muito bem dizer estes versos de Verme: "O seu sangue é tão gostoso/vou chupar ele todinho,/vai ficar mais saboroso/se eu chupar de canudinho."
P.S. A tradução de Uma carniça é de Jamil Almansur Haddad.

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